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O Homem por detrás da Colecção



O Homem por detrás da Colecção


A personalidade multifacetada de José Manuel Rodrigues Berardo exerce um inevitável deslumbramento. Homem de negócios, espalhados pelos quatro cantos do Mundo, pioneiro em diversos sectores, coleccionador de arte e filantropo, nasceu a 4 de Julho de 1944, numa Madeira conservadora e onde a pobreza era lugar-comum. Natural da freguesia de Santa Luzia, Funchal, é o mais novo de sete irmãos e o segundo a receber o nome Berardo, depois da família, em 1931, ter perdido todas as suas economias com a falência do Banco Henrique Figueira. Em 1939, a família Gomes, estava já restabelecida desse contratempo financeiro e muda-se para a nova casa, na freguesia de Santa Luzia, onde viriam a nascer Jorge e José, que, num verdadeiro corte com o passado, foram baptizados como Berardo, um dos nomes de família que nunca havia sido utilizado.

Filho de Manuel Berardo Gomes, homem respeitado e com grande apreço pelos princípios morais, que embora não soubesse ler nem escrever, fazia contas em numeração romana, e de Ana Rodrigues Gomes, doméstica, natural da freguesia do Monte, e profundamente religiosa, José Manuel Berardo considera que é uma dádiva estar vivo, pois nasceu quando a mãe tinha 46 anos.

A família progrediu, e apesar da capacidade económica não ser a mais favorável, Berardo fez a 4ª classe, no Externato de São Luís. Instituição sedeada em Santa Luzia, e gerida pela família Veríssimo, uma estirpe de classe média-alta, que promoveu a educação dos mais carenciados até aos anos 70. Nunca perdeu um ano lectivo, mas diz ter aprendido apenas a ler, escrever e fazer contas. As brincadeiras de rua atraíam-no mais. Divertia-se aprendendo a nadar em cima de troncos de bananeira; jogando às cartas durante a noite, debaixo do candeeiro público; ouvindo histórias dos mais velhos e arriscando uns passos de futebol.

Terminou a escola primária e, ainda, frequentou um curso de contabilidade, durante um ano e meio, na Rua da Carreira, uma das principiais artérias da cidade do Funchal.

Aos 12 anos começou a trabalhar na Madeira Wine Company, onde trabalhava o seu pai, como loteador, e havia trabalhado o avô e um tio. Além de rotular garrafas, era paquete e servia chás e cafés nas reuniões do Conselho de Administração. Através de conhecimentos, que travou nessa altura, com pessoal dos navios, começa a comercializar artigos vindos de fora, junto aos quadros superiores da empresa, e pouco tempo depois, ganhava já mais, do que seu pai.

No entanto, isso não era suficiente, para a sua ambição. A chegada à Ilha de emigrantes vindos do Brasil, Venezuela e África do Sul, com grandes condições, fizeram com que José Berardo quisesse fazer vida noutro país.

Enquanto adolescente, ia muitas vezes para o topo das montanhas, vislumbrando alcançar um horizonte mais alargado. Quanto mais subia, mais amplo era esse seu horizonte, mas mesmo assim, sentia-se limitado. Para realizar as suas ambições e sonhos, teria que ir além, desse seu horizonte.

Contrariando a vontade do pai, elegeu o continente africano, visto ser o único onde não tinha familiares, pois a sua ideia, era começar uma vida completamente nova e à sua maneira.

Esperou até aos 18 anos para prosseguir o seu sonho, e o país eleito foi a África do Sul, embora não falasse inglês. Estávamos em 1963, quando embarcou com mais 40 rapazes da sua idade, no Moçambique, um navio pertencente à Companhia Colonial de Navegação, que julgavam ser de militares para a guerra do Ultramar. Contudo, esperava-os afinal, centenas de mulheres, que Salazar expulsara de Portugal, como resultado da política de proibição das Casas de Lazer. A viagem até Lourenço Marques, actual Maputo, tornara-se assim memorável. Porém, à chegada, os 40 madeirenses viram os seus documentos cancelados. De todos, José Berardo foi o único que não “saltou” a fronteira para a África do Sul, preferindo aguardar seis meses pelos documentos, e entrar de forma legal no país, que haveria de considerar a sua pátria adoptiva. Enquanto aguardava, não ficou parado, arranjou emprego na loja de um italiano e, rapidamente, começou a ganhar dinheiro vendendo electrodomésticos aos indianos.

Após uma paragem forçada, que acabou por ser bem desfrutada, valendo inclusive vários prémios como dançarino, rumou com destino a Joanesburgo, em Novembro de 1963. Chegado à cidade faltavam percorrer 400 quilómetros dentro de um camião sem condições, para começar o trabalho na apanha de legumes. Em Orange Free State, numa quinta longínqua, começara uma nova odisseia, a adaptação à cultura, aos costumes e ao trabalho. Dominar as línguas nativas, o afrikaans e o inglês, levou-lhe quatro anos. Dos serviços agrícolas pouco fez, porque velozmente passou para as lojas e num pulo chegou a gerente. O patrão queria vê-lo ficar por ali, mas o destino era a cidade grande, Joanesburgo. Beneficiando do contacto com um comerciante português de legumes, Manuel Teixeira, chegou à maior cidade da África do Sul. Em pouco tempo, fez sociedade com o patrão e vendia legumes, ele próprio, aos trabalhadores das minas.

A par dos negócios, também os afectos de José Berardo nasciam em Joanesburgo. Carolina Gonçalves, natural da África do Sul, mas filha de pais madeirenses, José Gonçalves e Alzira Mota Gonçalves, foi a escolhida. Em 1969 começou uma paixão que dura até hoje. Um típico caso de amor à primeira vista, que tirou Berardo, de uma assumida vida de boémia.

Os concursos de Rock and Roll; o clube 505; as infindáveis noites de música ao vivo; as gincanas para entrar nos bares; a discoteca Barbalela, da qual chegou a ser sócio com um amigo; entre muitas outras aventuras, ficavam agora, no passado, marcado por uma juventude extraordinariamente noctívaga.

O ano de 1969 seria de viragem nas prioridades de Berardo. Casado com Carolina, em primeiro lugar manteve o trabalho, em segundo a família, e logo a seguir situou os amigos.

Em 1971, nasce o primeiro filho do casal, Renato. Tendo estudado Gestão na Universidade de Huron, em Londres, o primogénito, é hoje o braço direito do pai, nas muitas empresas do império Berardo. Treze meses depois nasce Cláudia, a filha mais nova, que após ter terminado os estudos na capital britânica, se dedicou ao estudo e divulgação das diversas colecções de arte, uma paixão, partilhada por toda a família.

Com família constituída e integrado socialmente, José Berardo, continua a desenvolver negócios próprios, ainda que, de dimensão limitada até 1978. Entretanto, a venda de produtos alimentares para as minas de Joanesburgo, e o seu contacto com o sector mineiro, faz recair, cada vez mais, a atenção nas antigas minas abandonadas. Onde alguns viam entulho, Berardo via ouro. E tinha razão. A reciclagem dos desperdícios de ouro parecia economicamente viável, e não hesita. Compra as minas abandonadas e reinicia a sua exploração, aproveitando as novas tecnologias existentes.

A decisão de participar neste sector criou conflitos familiares e com amigos, que consideravam a actividade dimensionada para multinacionais. Mas nada o demoveu dos seus propósitos, fundamentado num fortíssimo pressentimento e intuição, que o preço desse metal precioso iria aumentar. De facto, em relativamente pouco tempo, viria a ser considerado um dos maiores proprietários de reservas de resíduos auríferos à superfície, em Joanesburgo.

Tal como havia previsto, o preço do ouro teve uma subida galopante e, em pouco tempo, as multinacionais propunham-lhe Joint Ventures. Berardo forneceria a matéria-prima e eles reactivariam as refinarias que estavam fechadas por falta de resíduos.
O seu primeiro grande negócio surge, exactamente, nesta fase da sua vida. Instalado na propriedade, que pertencia a Henry Opparman, um rico empresário sul-africano, oferece 40% dos ganhos ao empresário e fica com os restantes 60%, fazendo assim, o seu primeiro milhão, sensação que nunca esquecerá.

Com perseverança, foi resistindo às pressões das multinacionais e concluía as Joint Ventures nas condições de participação, que previamente definia, concedendo-lhe um sucesso instantâneo.

Torna-se proprietário de quatro refinarias de ouro e avança para as minas de diamantes. Inicia-se no ramo da banca e o passo seguinte seria o mercado accionista. Bebendo os ensinamentos de Óscar Gatez, um advogado judeu de quem se tornou muito amigo, aprendeu rapidamente a negociar na Bolsa de valores. Da amizade, ficou em herança, um lema que tem norteado a sua vida: “todo o investidor tem obrigação de fazer o bem na sua comunidade”. É com base neste princípio, que irá surgir, anos mais tarde, a Fundação Berardo, uma Instituição Particular de Solidariedade Social, virada, essencialmente, para a educação, saúde e cultura.

As oportunidades de negócio seguiam-se a bom ritmo na África do Sul. Após o ouro e os diamantes, chegou o petróleo, os mármores e granitos, as telecomunicações, o material informático (chips), o papel, e até o cinema, empregando mais de dez mil colaboradores.

Presidente do Bank of Lisbon and South Africa, perfeitamente, integrado na comunidade e com a convicção de que seria aquela a terra da sua família, a situação política apelava à sua participação. Assim, acaba por aceitar o convite para fazer parte do Conselho Consultivo do Presidente da República, que era constituído por vinte e duas personalidades, sendo o único e primeiro estrangeiro desse Conselho.

Convicto que iria contribuir para acabar com o sistema de segregação racial, assume-se contra o Apartheid, e opta por actuar dentro do Partido Nacional, com o intuito de pôr fim ao regime. Tomando um papel activo, no país que o tinha recebido como filho da terra, lutou contra um dos maiores e mais cruéis, procedimentos de discriminação que o Mundo tem memória.

Em 1979 recebe o grau de Comendador, pela Ordem do Infante D. Henrique, entregue pelo, então chefe de estado, General Ramalho Eanes. A condecoração é atribuída pela ajuda prestada à comunidade portuguesa na África do Sul, durante largos anos, distinguindo o empreendedor, o self made man.

Coleccionador inveterado, desde infância, é nos inícios da década de 1980, que começa a sua primeira colecção de arte, ainda que, a primeira aquisição, tenha acontecido, em 1969, numa loja de móveis em Joanesburgo, onde comprou uma litografia da Mona Lisa, pensando que se tratava de um original. Verdadeiro autodidacta, o interesse pelas artes plásticas nasce na África do Sul, quando começa a visitar museus, galerias e casas de amigos com interesses pelas questões culturais. Deslumbrado com as criações artísticas, que para si eram novidade, organiza, ele próprio, a sua primeira colecção. Centrando-se em trabalhos sul-africanos, anteriores e posteriores ao Apartheid, tinha como objectivo reunir um testemunho das produções artísticas do período de ditadura e de uma nova liberdade, congregando um espólio, que reflectisse o ponto de vista político e social da época. Este envolvimento cultural despertou, ainda na África do Sul, uma outra paixão, a Natureza.

Na segunda metade dos anos 80, decide diversificar a localização das suas actividades. Intensificam-se, então, as viagens ao Canadá, a Portugal e à Austrália, para onde expandiu o negócio mineiro. No Canadá opera com o gás natural e com os vinhos.
Entretanto, na África do Sul, a violência era constante. Uma visita do presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, acaba por marcar diversos empresários, entre os quais Berardo, que sente o apelo à terra natal. Numa aproximação a Portugal, sobretudo à Madeira, José Berardo, e o seu amigo Horácio Roque, compram uma empresa da indústria tabaqueira, em 1987.

No Funchal, seguiu-se a compra da Quinta do Monte Palace, há muito penhorada e votada ao abandono. A 12 de Novembro de 1988 é instituída a Fundação José Berardo, entidade a quem José Berardo doou a Quinta. Estavam assim criadas as condições, que iriam permitir mobilizar a energia e os meios necessários à recuperação do património edificado e ambiental.

O grande fascínio, e a tal paixão pela Natureza, impeliram Berardo e sua família, a se dedicarem, pessoalmente, e com ajuda de especialistas, a essa grande obra. Procurando inspirar-se na própria história da Quinta do Monte Palace, reforçando a natureza romântica das suas origens e arquitectura, levaram à concretização do sonho, pegar num jardim em estado de abandono e transformá-lo num Jardim Tropical. A ideia de Jardim Tropical, à semelhança dos jardins botânicos tão ao gosto do século XIX, instala a vontade de sonhar com mundos diferentes, onde se podem observar, em simultâneo, um painel da biodiversidade do património natural madeirense e colecções de espécimes botânicos oriundos de vários continentes, com destaque para oliveiras milenares transplantadas de zonas que seriam, mais tarde, inundadas pela construção da barragem do Alqueva. À flora madeirense, juntou-se plantas vindas da Ásia; azáleas da Bélgica; urzes da Escócia; uma rara colecção de cicas, provenientes da África do Sul; esculturas ocidentais e orientais; uma colecção de azulejos do séc. XVI ao XX, entre outros, que foram dados a conhecer ao público, no dia 5 de Outubro de 1991. O Jardim Tropical Monte Palace constitui, hoje, um património histórico e vivencial fundamental. É um lugar exuberante, uma homenagem aos descobrimentos portugueses com presenças dos quatro cantos do Mundo, que tem sido aumentado, ao longo dos anos.

A Fundação que preside atribui, também, bolsas de estudo a estudantes madeirenses que frequentam cursos superiores fora da Região Autónoma da Madeira, para além de prosseguir com fins sociais, caritativos, educativos, artísticos e científicos, dedica-se ainda, com grande e particular empenho, à salvaguarda e preservação de obras de arte, assim como, à defesa e protecção do meio ambiente.

Na década de 1990, seguiam-se os negócios em Portugal. Adquire títulos de comunicação social e participações nos sectores turístico, imobiliário, alimentar e tabaco. Não esquece o sector financeiro e funda o Banif. Retomando uma paixão antiga investe no sector dos vinhos, tanto na cultura agrícola como na produção vinícola.

Mas, os anos 90 seriam, essencialmente, marcados pelo crescimento da Colecção de Arte Moderna e Contemporânea. É com ajuda de Francisco Capelo, responsável pelas aquisições e pela orientação inicial da Colecção, que o espólio começou a tomar forma. O objectivo inicial era constituir uma colecção de arte contemporânea internacional, que seguisse os critérios historiográficos e cronológicos tradicionais, assumindo-se como uma ilustração metódica e sistemática das diferentes correntes, tendências, linhas de investigação e trabalho que se foram sucedendo, na Europa e nos EUA, desde o final da II Guerra Mundial até à actualidade. A organização da Colecção, em blocos cronológicos e por tendências, corresponde ao que seria a estrutura normal de um livro de história de arte da segunda metade do século XX.

Assim, num primeiro momento, a Colecção centrar-se-ia em obras do segundo pós-guerra, definindo, a data de 1945, como marco importante para o seu início, dadas as mudanças significativas, relativamente, aos grandes centros de produção artística e ao aparecimento de novos movimentos, que emanam principalmente dos EUA, influenciando, peremptoriamente, a arte europeia.

Houve uma opção clara por uma Colecção de tipo cronológico, extensivo e abrangente, em oposição ao que poderia ser uma outra baseada num gosto pessoal, num ponto de vista teórico mais específico e determinado ou uma especialização mais intensiva numa determinada área, tendência ou corrente. A ideia de José Berardo era não fechar portas na Colecção, antes pelo contrário, permanecer aberta a diferentes escolhas, leituras e perspectivas. Esta opção ter-se-á ficado a dever, em boa parte, ao carácter necessariamente museológico e à importância pedagógica decisiva que viria a adquirir no panorama nacional.

Mais tarde, a Colecção alargou o horizonte temporal até aos primórdios do Modernismo. Cobrir os principais movimentos e os seus protagonistas, facultando uma leitura articulada das diversas correntes originais e originárias dos diferentes países europeus e americanos, e abranger os artistas, que marcaram o início do século passado até aos desenvolvimentos mais recentes da criação artística contemporânea, foi um desígnio latente da Colecção Berardo desde a sua génese.

No que diz respeito ao método de aquisição, as compras foram sendo feitas quer em leilões quer em galerias. Nalguns casos, e em períodos de maior dificuldade económica de algumas galerias, foi até possível comprar obras de colecções pessoais dos galeristas, o que explica, por exemplo, a qualidade do núcleo de Arte Povera. Noutros casos, e através da intervenção de galeristas, conseguiram ter acesso a obras das colecções privadas dos artistas. Hoje em dia, a colecção mantém relações privilegiadas com galerias como Anthony d’Offay, Mayor, Waddington, Lisson, Gimpel Fils e Annely Juda, em Londres, ou Yvon Lambert, Ghislaine Hussenot, Daniel Templon e Durand-Dessert, em Paris.

É em 1993, na Galeria Valentim de Carvalho, em Lisboa, que a Colecção é vista pela primeira vez em Portugal. Revelando, nessa altura, algumas obras emblemáticas, de nomes como Arman, Balthus, Lúcio Fontana, Nicolas de Staël, Vieira da Silva, entre outros, representava ainda, uma pálida ideia do que seria o projecto. Essa primeira aparição foi, no fundo, uma tentativa de perceber qual a reacção do público em relação à Colecção.

Quatro anos depois, é assinado um protocolo com a Câmara Municipal de Sintra, sendo a Colecção exposta, no antigo Casino da Vila, que atende pela designação de Sintra Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo. É aqui, num edifício histórico da vila, adaptado para o efeito, que tem início uma série de exibições, já numa óptica museológica.

No mesmo ano, em 1997, é ainda celebrado, um outro protocolo com a duração de 10 anos, que possibilita a exposição pontual no Centro Cultural de Belém, bem como, a utilização de parte das reservas desse equipamento cultural.
Considerado pela Art Review uma das pessoas mais influentes no mundo da arte, Berardo tem como principal motivação contribuir, cada vez mais, para uma abertura que sistematize encontros entre o grande público e a arte, ambicionando, que o coleccionismo possa ser partilhado por todos, como enriquecimento da actividade humana, fomentando o gosto e o deleite de desfrutar a arte.

Lançando a Colecção Berardo como uma das suas prioridades na vida é com regozijo que a vê classificada, uma das melhores colecções privadas da Europa, como ditou o Jornal Independent, num artigo intitulado: Beyond the Guggenheim, de 11 de Agosto 1998.

A paixão pelo coleccionismo é antiga, e remonta os bancos da escola. Coleccionador compulsivo, desde da infância, começou por juntar selos, caixas de fósforos e postais dos navios transatlânticos que passavam pela Madeira.

A curiosidade talvez seja o traço que melhor caracteriza todo o coleccionador e não é, seguramente, por acaso que esta mesma palavra é utilizada para referir um objecto raro – uma curiosidade – capaz de despertar a atenção e o interesse.
Se é a curiosidade que alimenta o espírito e que faz mover o coleccionador, não há dúvida que aquilo que é coleccionado, o que é escolhido como objecto da vontade e da paixão de quem colecciona, não pode ser divorciado das expectativas de uma determinada época, ou do que os outros esperam de nós. De certa forma, o coleccionador procura e reúne as obras que outros gostariam também de encontrar e de reunir. Sem o perceber sempre, o Coleccionador torna realidade, de facto os sonhos dos outros. É esta relação entre sonho do indivíduo e o sonho dos outros que traça o destino de qualquer colecção e que lhe assegura um lugar na comunidade.

A paixão pela arte, e o prazer pelo coleccionismo, levou Berardo a constituir outras colecções, nomeadamente, de azulejaria (século XVI até à contemporaneidade); cartazes publicitários originais; móveis e objectos Art Deco; escultura contemporânea do Zimbabué; faianças portuguesas; minerais e gemas; estanhos portugueses, entre outras, que se encontram expostas, quer em regime temporário, quer em regime permanente, em várias instituições nacionais e internacionais.

Foi o fascínio e o deslumbramento, que motivaram José Manuel Berardo à criação das suas colecções e às aquisições que empreendeu. Por essa razão, nunca vendeu uma só obra das suas colecções, pois as actividades que empreende no âmbito da cultura e das artes são, entre múltiplas actividades que desenvolve, as únicas que não relaciona com o investimento e aplicações financeiras, no sentido mais estrito do termo.

Sem a sua acção, algumas das peças que possui ter-se-iam esquecido, ou perdido o significado acrescido que uma colecção oferece, no que se refere à rede de significados que o coleccionador vai lentamente tecendo com a ajuda dos investigadores e estudiosos. Outras pura e simplesmente ter-se-iam afastado ainda mais dos seus contextos originais, porque compradas por coleccionadores dos países mais ricos e poderosos que, ao longo de séculos de domínio, privaram os povos daquilo que melhor têm, a sua identidade, as isolaram num contexto inatingível.

A dedicação à cultura, às artes e à sua divulgação valeu-lhe a distinção da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique entregue pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, a 5 de Outubro de 2004. Um ano mais tarde, a 2 de Outubro de 2005 é agraciado com as insígnias de Cavaleiro da Legião de Honra, pelo embaixador Patrick Gautrat, em representação do então Presidente da República Jacques Chirac. Esta condecoração, fica a dever-se à relação cultural, que mantém há largos anos com a França, tendo realizado exposições nesse país, assim como, na sua respectiva Embaixada, em Portugal.

Mas a sua maior odisseia foi com Estado Português. Desde a abertura do Sintra Museu de Arte Moderna – Colecção Berardo, debateu-se por um Museu de Arte Moderna e Contemporânea em Lisboa. Considerava, que a capital portuguesa deveria de ter, um espaço digno, onde o público pudesse fruir das criações artísticas actuais. Governo após Governo, ministro após ministro, a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea continuava sem morada certa. O Coleccionador persistiu com os diversos Governantes durante uma década. Sabia o que queria e conseguiu-o: um museu com o seu nome, uma fundação subsidiada pelo Estado para o gerir, a cedência das suas peças por um período não superior a dez anos, um espaço para instalar a Colecção, neste caso o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, e a possibilidade de continuar a expor mundo fora. Não foi uma negociação fácil para o Governo, mas por seu turno, José Berardo, embora tivesse recursos, não queria constituir mais um museu privado. O seu objectivo não era esse. Queria que fosse o Museu de todos os portugueses, que todos o sentissem como seu, e a melhor forma de o fazer era através do Estado Português, enquanto mediador e gestor das contribuições individuais.

O Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea levou assim, dez anos a tomar forma, contudo, a 3 de Abril de 2006 é assinado o protocolo, que cria a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo, permitindo a instalação da Colecção, em regime de comodato, por um período de 10 anos, no Centro Cultural de Belém. Modelo esse, que pouco difere do idealizado pelo Coleccionador em 1996, quando iniciou as conversações com o então titular da Cultura, Manuel Maria Carrilho.

O espaço geográfico onde está agora instalada a Colecção Berardo é uma zona privilegiada. Belém é um eixo turístico importantíssimo para o país, sendo que, a diversidade da oferta cultural é uma vantagem acrescida. A ideia, que esteve sempre latente, na origem do protocolo, era colocar a Colecção à disposição dos portugueses e apresentar as obras em diálogo com outras colecções nacionais e internacionais.

José Berardo dedica-se à arte, porque a cultura lhe dá prazer. Mas, porque é preciso recursos financeiros para desenvolver os sonhos, não se descuida do mundo dos negócios que, tal como a cultura é um jardim que exige cuidados permanentes.
A sua aposta mais recente está também no sector da energia: uma central de energia de origem vulcânica, projecto que por enquanto se restringe à Nicarágua, mas poderá estender-se a toda a América do Sul. Mantendo-se fiel, à filosofia de mercados não poluentes, continua a apostar no turismo, associado à cultura, como forma mais fácil de gerar emprego.

A África do Sul marcou-o para sempre, do sotaque à forma depreendida como encara os seus negócios. No entanto, fala com mais interesse e entusiasmo das suas empresas do que das suas participações financeiras. Passados 40 anos, os ensinamentos do amigo Óscar, que o ensinou a investir na bolsa, continuam a dar frutos, jamais se esquecerá, das palavras sábias do seu velho amigo: never fall in love with paper or your business (nunca te apaixones pelas tuas acções ou pelo teu negócio).

José Berardo confessa, que o segredo do seu sucesso é estar sempre atento às boas oportunidades. Nenhum pormenor lhe passa despercebido. É um homem bem-humorado de gargalhadas sibilantes que se multiplicam um pouco por todo o lado. Em alerta constante, e sempre a recolher informação, funciona com base na confiança. A família é uma chave fundamental para o enorme sucesso, tem estado ao seu lado em todos os passos. Se Carolina é a sua conselheira e confidente, o filho Renato é o braço direito por excelência, um perfeito homem de negócios. Imbuídos pelo espírito do patriarca, o interesse da família pela arte e natureza, tem vindo a revelar-se com o tempo.

Renato Berardo é um dos grandes impulsionadores da construção de um Jardim Oriental, localizado na Quinta dos Loridos, Bombarral. Toneladas de pedra foram aportadas na quinta, para ali se prestar homenagem, a uma cultura milenar. O projecto teve início em 2001, quando profundamente chocado com a destruição dos Budas Gigantes de Bamyan, no Afeganistão, José Berardo principiou, mais um dos seus muitos sonhos, a construção de um extenso jardim oriental, que agora é apadrinhado pelo filho.

Anos antes de iniciar este desígnio, na Quinta dos Loridos, e a par da recuperação da Quinta Monte Palace, a sua paixão pela Natureza fê-lo reflorestar 79 hectares de floresta ardida na Madeira e comprar cerca de 100 hectares, da Floresta Laurissilva, classificada Património Mundial, com o intuito de a preservar.

A obra realizada, fruto do prazer e da vontade em partilhar com os outros o amor pelos espaços verdes e pela sua protecção, é também um testemunho de que aquilo que recebemos, apenas temporariamente, nos pertence e deve permanecer, após a nossa morte, disponível para ser usufruído por todos.

A beleza da Natureza sempre teve o dom de o comover, de despertar uma sensação de paz e tranquilidade dentro de si próprio. Gosta de criar e desfrutar o crescimento das plantas.

Apaixonado pelas artes plásticas, sabe que apenas a Natureza lhe pode oferecer novas cores numa paleta distinta. Seduzido pela sua força deslumbra-se, não só pela parte física, bem como, pelos sons, aromas e boas sensações que lhe transmite. Sendo a árvore um forte símbolo de paz, ela evoca-lhe a lembrança do tempo sem tempo, a ancestralidade das tribos e a longevidade da sabedoria.

Para José Manuel Berardo observar uma árvore traz-lhe o poder de conexão directa com a Natureza, que é pura manifestação de beleza. E a paz nasce da beleza. Basta-lhe olhar para uma árvore, com os olhos cheios e a mente vazia, para compreender que ela é um grande mestre da paz. Considera, que a continuação da vida na Terra depende da consciência de se proteger as árvores e, consequentemente, a Natureza como um todo.

Tal como todos os ricos e poderosos, Berardo tem as suas contradições. Quando fez 60 anos quis fazer o salto de avião para saber qual a sensação. Saltou, mas não foi nada comparado à sua adrenalina, que diz constar na lista dos seus vícios. Embora, considerasse o salto interessante, não lhe veio acrescentar nada em termos de adrenalina. Para além de ver filmes de acção e de adorar dançar horas a fio, não tem outros interesses, que suplantem a família e o trabalho.

No “império Berardo” o sol nunca se põe. Há negócios em todo o mundo, ou quadros expostos em vários museus, ou investimentos nas bolsas de Lisboa, Nova Iorque ou Tóquio. Não anda com muitos papéis mas está sempre actualizado. Nenhum pormenor lhe passa ao lado. Visita as suas empresas, museus e jardins com regularidade e gosta de se sentar com os seus colaboradores, quer seja nas salas de reuniões, num recanto dos seus jardins, nas caves e adegas, ou nas reservas de obras de arte. Gosta de sentir o pulso das instituições que lidera.

Em 2007, lançou a primeira Oferta Pública de Aquisição sobre um clube de futebol em Portugal. Queria comprar 85% das acções do clube da Luz, o Sport Lisboa e Benfica, mas apenas obteve a manifestação de vontade de cerca de 1,5%. No mesmo ano, é-lhe consentida a Medalha Tiradentes, pelo deputado Jorge Picciani, Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Medalha destinada a agraciar civis e militares, que se destaquem pelo seu valor pessoal, e tenham prestado relevantes serviços à causa pública do Estado do Rio de Janeiro. No caso de Berardo, esta condecoração fica a dever-se à ligação com a área cultural. Pela mesma ocasião, em Maio de 2007, foi-lhe, ainda, concedido o Título de Cidadão Honorário do Estado do Rio de Janeiro.

A grande questão quando se trata de José Manuel Berardo é saber como é que um homem que um dia, há muitos anos, comprou uma réplica da Mona Lisa pensando estar a comprar um original bonito se torna um importante coleccionador mundial e um grande apreciador de arte. Rigoroso e exigente, é um homem de ligações fortes, uma imagem que marca, alguém que tenta sempre viver a vida com prazer. A mesquinhez, não faz parte do seu vocabulário. Aprendeu na África do Sul a ver as grandes questões, porque quando se olha a floresta e não a árvore, as pequenas questões deixam de afectar. O resto é uma questão de prioridades: valorizar o que é positivo e esquecer o que é menos bom.
Sob um forte impulso carregado de intuição, qualidade que se foi tornando mais apurada nas áreas que lhe são caras, aliado à visão e ao tacto que revela no mundo dos negócios, junta um espírito sensível à beleza, seja das paisagens e jardins, seja das obras criadas pelos artistas.

E esta história, ainda em aberto, terá começado a 4 de Julho de 1944, com o desejo, que um homem teve de ficar para a História.






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